Em 1976 ocorreu o primeiro surto documentado de pneumonia causada pela legionella em meio às comemorações de 200 anos da independência norte-americana, ceifando 34 vidas e adoecendo outras 220. A descoberta e identificação da bactéria, até então desconhecida, ocorreu apenas em 1977 após trabalhos intensos de investigação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano. No tenso clima da Guerra Fria, as pesquisas foram acompanhadas pelos olhares incessantes da mídia e do Congresso Americano que queriam respostas rápidas e satisfatórias sobre a misteriosa doença que já havia matado mais de 30 integrantes da Legião Americana (associação de veteranos de guerra norte americanos que haviam lutado na Segunda Guerra Mundial e Guerra da Coréia). A repercursão foi grande e rápida pelo mundo que, no momento, estava alerta para uma possível pandemia de uma gripe (apelidada na época de gripe suína) que se espalhava pelo solo americano e que, até a ocorrência dos casos dos legionários tinha já feito algumas mortes.

Com a identificação da bactéria (chama assim de Legionella pneumophila), tipificação da doença, descrição do seu ciclo de vida, habitat e a forma como contamina os seres humanos, aos poucos e ao longo dos úlimos trinta anos, diversos países aprovaram e publicaram leis, normas e recomendações técnicas, entre diversos outros documentos, que versam sobre os cuidados a serem tomados com a legionella, sua interação com as construções humanas e as formas como devem ser gerenciados os riscos da proliferação dessa bactéria. Foram estabelecidos deveres rígidos a todos aqueles que possuem sob seus cuidados algum tipo de sistema (ou seja, praticamente todo sistema que possua água e o contato com seres humanos) que propicie a contaminação e disseminação da bactéria, responsabilizando-os por qualquer dano a saúde humana que a legionella venha a causar.

A atenção dada à legionella é grande, o número de mortos são altos (a fatalidade da doença está entre 15 e 25%) e as sequelas para os que sobrevivem são comuns. Segundo um estudo da American Society for Microbiology em 2010, a Doença dos Legionários sozinha representa aos Estados Unidos um gasto anual de 101 a 321 milhões de dólares, somando-se despesas privadas e públicas. Por ser uma doença extremamente custosa, relativamente comum (a OMS estima que haja 10 mil casos de legionelose por ano somente na Europa e estimativas apontam para mais de 2 mil mortes apenas no Brasil) e cuja fonte causadora é, não apenas rastreável, mas também passível de se ser controlada criou-se, não apenas nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra, Espanha, França, Suécia, Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong, entre diversos outros, mecanismos jurídicos e de vigilância pública específicos para identificar e responsabilizar civilmente quem possibilitou que um caso ou um surto ocorresse.

No Brasil, a situação não é muito diferente. Embora não haja legislação específica que cite a legionella e seus riscos, a negligência para com os cuidados de sua contenção e de seu controle enseja, como apontado pela jurista Dra Miriam Dilgueriam, responsabilidade de reparação civil dos danos ocasionados.

Portanto, a preocupação com os riscos à saúde causados pela legionella é de alguma forma generalizado e, inclusive países que não possuem legislação específica, como o caso do Brasil, já possui interesse em entender e se precaver de incidentes. Nesse contexto se insere este blog que possui a intenção de fazer um apanhado sobre a legionella e anunciar as novas sobre casos, pesquisas e métodos de controle.